A estratégia de Rodrigo Pacheco para conquistar o governo de Minas Gerais

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Em meio ao desejo de disputar o governo, o presidente do Senado busca equilibrar a guinada à direita com os acenos à esquerda

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Presidente do Senado, Rodrigo Pacheco / Crédito: Jonas Pereira/Agência Senado

“Ele não é grande porque é presidente do Congresso, até porque não se torna presidente do Congresso à toa. Esses atributos levaram ele até lá, o atributo de entender que a política é um lugar de fato de conversar com todo mundo, de sentar com as pessoas e buscar soluções.”

Essa fala da deputada estadual mineira Lohanna França (PV-MG) ao JOTA, mostra muito como Rodrigo Pacheco (PSD-MG) é visto entre aliados e opositores.

De perfil discreto, o atual presidente do Senado tem uma escalada vertical na política. Rodrigo Pacheco se elegeu deputado federal por Minas Gerais em 2014 pelo MDB, dois anos depois, disputou a prefeitura da capital e ficou em terceiro lugar com pouco mais de 10% dos votos válidos. No ano seguinte, assumiu a presidência da principal comissão da Câmara dos Deputados, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). Em 2018, pré-candidato ao governo de Minas, Pacheco desistiu da candidatura para ser o senador mais votado do estado. Assumiu uma das vagas, junto com o ex-apresentador e radialista Carlos Viana, derrotando ninguém menos que a ex-presidente Dilma Rousseff, que liderava as pesquisas e terminou em quarto lugar.

No Senado, ganhou importância na articulação que fez o então desconhecido senador do Amapá, Davi Alcolumbre, presidente da Casa. Em 2020, com a decisão da ação direta de inconstitucionalidade 6.524 pelo Supremo Tribunal Federal (STF) que impediu a reeleição de Alcolumbre, Rodrigo Pacheco foi eleito presidente do Senado, quebrando um jejum de 44 anos sem nenhum mineiro ocupar a cadeira de presidente do Congresso. O último senador de Minas que presidiu o Congresso tinha sido Magalhães Pinto durante o Regime Militar.

O presidente, cujo exemplo na política é Juscelino Kubitschek, segue no cargo até o fim deste ano e hoje tem duas metas importantes. A primeira é deixar um caminho pavimentado para sua sucessão na presidência do Senado; a segunda é se tornar governador de Minas Gerais.

Pacheco tem trabalhado para reconduzir Davi Alcolumbre, hoje no União Brasil, ao posto de presidente do Senado. A tarefa não é das mais fáceis, mas nos bastidores, ele vai desatando os nós que tem encontrado pelo caminho com maestria. No início de março, conseguiu um dos maiores trunfos: mesmo sem cargo de liderança na casa, Alcolumbre acompanhou Pacheco em um Happy Hour no Palácio do Alvorada promovido aos líderes no Senado. Os dois ouviram Lula tecer elogios a Davi e declarar apoio do Planalto à candidatura do atual presidente da CCJ.

Além de Lula, Pacheco conseguiu outra costura. Segundo fontes, a bancada do PL, partido do ex-presidente Jair Bolsonaro e Valdemar da Costa Neto também apoia a eleição de Alcolumbre. O PL é a segunda maior bancada do Senado, com 12 parlamentares. A primeira é o PSD de Pacheco, com 15 senadores.

Isso explica a guindada à direita feita por Rodrigo Pacheco no segundo semestre do ano passado. Em aceno à bancada da oposição, o Senado aprovou, em novembro, uma proposta de emenda à Constituição (PEC 8/2021), que limita decisões monocráticas de ministros do Supremo e de outros tribunais superiores. Com o senador Rogério Marinho (PL-RN), líder da bancada de oposição, sentado ao seu lado, Rodrigo divulgou o resultado onde 52 senadores apoiaram a aprovação da PEC.

Este ano, ainda em aceno à oposição, Pacheco discursou na sessão de abertura do Ano Legislativo e mesmo sem marcar data, reforçou a intenção de discutir mais pautas dos setores da direita com mandatos de ministros do STF e reestruturação de carreiras jurídicas.

Dívida e governo de Minas

Interlocutores ao redor de Rodrigo Pacheco acreditam que essa condução do pacote de medidas contra o Supremo tem ajudado a conquistar a simpatia da bancada de centro-direita em Minas, o que faz com que cresça o apoio à campanha de 2026 ao governo de Minas Gerais.

Apesar de o presidente Lula ter vencido Jair Bolsonaro em Minas Gerais em 2022, ter o apoio do eleitor de centro-direita é fundamental para quem quer ser governador do estado. Pesquisas de opinião, a própria reeleição de Romeu Zema no primeiro turno e a votação Nikolas Ferreira e do senador Cleitinho em 2022, todos apoiados por Bolsonaro, são exemplos disto.

Mas, mesmo com essa inclinação à direita, Pacheco tem uma oportunidade para conquistar a simpatia também da esquerda e do centro: a crise fiscal que assola Minas.

No fim do ano passado, o senador aproveitou as dificuldades e a falta de diálogo do governador Zema com Lula e apresentou uma alternativa ao regime de recuperação fiscal para sanar a dívida de 160 bilhões que Minas tem com a União.

Segundo interlocutores do governo Zema, as manchetes dos sites com a foto do presidente do Senado entregando a proposta junto ao presidente Lula e o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, caíram como uma explosão na Assembleia de Minas.

“Todo o esforço para aprovar o Regime de Recuperação Fiscal na Assembleia foi prejudicado. Uma vez que os deputados enxergaram uma possibilidade menos impopular para o funcionalismo”, afirmou.

O Regime de Recuperação Fiscal de Zema, que precisava da aprovação dos deputados mineiros, conta com privatização de empresas estatais, reparcelamento da dívida em 30 anos e congelamento de salário dos servidores por 10 anos. Já a proposta entregue por Rodrigo Pacheco à União federaliza CEMIG, COPASA e Codemig e não mexe com o reajuste dos servidores estaduais.

Fontes do Governo Zema afirmaram que depois da proposta de federalização, era difícil encontrar até deputados da base. As reuniões na Assembleia eram facilmente obstruídas pela oposição.

O ganho político da movimentação de Rodrigo Pacheco pode ser visto recentemente. No início de março, o presidente do Senado recebeu em Brasília deputados de esquerda que fazem oposição a Zema. No dia seguinte, foi a vez dos parlamentares mineiros de centro e direita. Tudo divulgado em suas redes sociais em fotos sorridentes. O que só faz confirmar o que se fala nos bastidores: Rodrigo Pacheco é hoje o principal articulador das bancadas mineiras na Câmara e na Assembleia Legislativa para tratar dos problemas do estado.

A deputada Lohanna França, opositora de Zema na Assembleia, que esteve com a bancada em Brasília, disse ao JOTA, entender que o protagonismo de Pacheco é mais do que uma cartada para 2026.

“Eu acredito que ele (Pacheco) faz isso pensando no Estado e colocando o interesse dos mineiros em primeiro lugar, mas isso não deixa de ser um movimento pensando em ser governador. Até porque ninguém quer ser governador em um estado que não tem dinheiro para fazer nada. Então resolver essa situação da dívida é fundamental até para uma eventual governabilidade.”

Após os encontros, Rodrigo Pacheco confirmou que a maior preocupação dos dois grupos era a repactuação da dívida. A solução tem que ser definida até o dia 20 de abril, prazo máximo da liminar de carência que o Estado conseguiu no STF. Caso contrário, o governador Zema terá que voltar a pagar as parcelas da dívida, dificultando sua governabilidade.

“Reafirmei aos parlamentares, em razão da urgência, que o tema será tratado com a prioridade necessária, nas próximas semanas, com a participação de todos os envolvidos na busca pela solução desse problema que aflige todos os mineiros”, declarou. A previsão é que o Ministério da Fazenda apresente nos próximos dias uma nova proposta de aperfeiçoamento do atual regime de recuperação fiscal.

DANIEL TREVOR – Repórter freelancer

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