Conheça o ‘relacionamento pantufa’, em que os casais preferem não se assumir publicamente

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Opção em não expor comprometimento traz vantagens e desvantagens e pode esconder situações abusivas

urante 23 anos, o norte-americano Derek Fan, famoso pelo epíteto de “O Homem Dorminhoco”, manteve seu par de pantufas nos pés, não as retirando sequer para tomar banho e esperando que elas secassem em contato com o próprio corpo, feito que o levou a ilustrar as páginas do Guinness Book, o Livro dos Recordes, a partir do dia 30 de junho de 2007.

Na Escócia, circula a versão de que a protagonista do clássico conto-de-fadas “Cinderela”, também conhecido como “A Gata Borralheira” – escrito pelo francês Charles Perrault (1628-1703) a partir de um folclore italiano –, usava confortáveis pantufas de vidro, embora, na adaptação feita pela Disney, em 1950, ela esquecesse, nas escadarias do palácio, o seu delicado sapatinho de cristal…

Em lugares como Filipinas, Índia, Malásia, Singapura e Havaí, até pelas características culturais, a pantufa tem o mesmo significado de chinelo ou sandália. No entanto, para a maior parte dos países ocidentais, esse artigo do vestuário refere-se a um tipo de calçado bastante específico, reservado para o uso íntimo, familiar, no interior da casa, em razão de seu conforto e praticidade, sendo, na maioria das vezes, utilizado com o pijama.

O aspecto de “fofura” também se impregnou à pantufa, com toda uma linha de produtos que reproduz bichinhos de estimação e itens de cozinha nesse adorno para os pés. Baseada nessa interpretação, surgiu a expressão “relacionamento pantufa”, que designa casais que optam por não se assumirem publicamente, ocultando o laço…

“Relacionamento pantufa é aquele relacionamento onde o casal se esconde, assumem entre si, mas não falam para outras pessoas. É um ‘assumir sem assumir’. É estar em uma zona de conforto, que não é tão confortável assim. A diferença é que a pessoa não assume a outra publicamente”, resume a sexóloga Enylda Mota. Segundo ela, “algumas pessoas gostam e necessitam dessa não exposição de si e do relacionamento”.

Porém, é necessário questionar e colocar em questão “o porquê de se estar em um relacionamento escondido, o que há por trás disso tudo, ou por que o outro não me assume”, pontua Enylda. A especialista esclarece que não há resposta única e que os motivos variam a cada casal, comportando “as mais diversas situações”.

Contudo, Enylda avalia que “esse tipo de relacionamento apresenta mais desvantagens do que vantagens, e, inclusive, a pessoa pode estar em um relacionamento abusivo”. No Instagram, a página “Não Era Amor” se dedica a auxiliar mulheres que vivem relacionamentos abusivos, criando uma rede de solidariedade, com cursos sobre o assunto junto ao auxílio da psicoterapia.

“A pessoa em um ‘relacionamento pantufa’ pode sentir tristeza, insegurança, medo e falta de desejo, mesmo que haja sexo no relacionamento”, enumera Enylda. Na opinião da sexóloga, “o primeiro passo é perceber se esse tipo de relacionamento está fazendo bem” à pessoa. Ela dá algumas dicas. “Identificar se você tem se divertido com a sua parceria, se tem saído, socializado, conhecido pessoas, amigos, familiares, e, por fim, se está feliz com a pessoa, ou se, ao contrário, tem se sentido mais triste e solitária”, alerta a entrevistada.

Armadilhas do ‘relacionamento pantufa’ podem ser desarmadas

A sexóloga Enylda Mota pondera que, embora pessoas adultas e plenamente conscientes de suas possibilidades e responsabilidades tenham o direito de escolher um relacionamento pantufa, “é importante a pessoa se posicionar, dizer o que sente, colocar as satisfações e insatisfações para a parceria”, caso se sinta infeliz ou tenha, simplesmente, mudado de ideia quanto à melhor formatação para o status do casal. “O relacionamento precisa de vida, de contatos, lugares, isso faz parte dos encontros, de namoro, paquera, e é essencial para um bom relacionamento”, assegura a especialista.

Noutras palavras, a sexóloga explicita que um relacionamento dinâmico e saudável não pode se escorar em condições previamente estabelecidas que um dia funcionaram, mas que, talvez, não atendam mais às demandas e necessidades do casal ou de um dos envolvidos na relação. Há, também, o risco do autoengano, ou da proposital desfaçatez de uma das pessoas envolvidas no afamado “relacionamento pantufa”.

“Muitas pessoas entram nesse tipo de relacionamento sem perceber que estão nele, sem se dar conta disso. Outras entram em um ‘relacionamento pantufa’ pela falsa segurança que ele oferece, e que, por algum motivo, ela necessita naquele momento”, especula Enylda. Resguardar a intimidade em tempos de exposição seria a premissa…

Todavia, Enylda considera fundamental reiterar a necessidade de um exercício de reflexão e autoconhecimento, que concerne a cada um, para escapar de possíveis armadilhas do “relacionamento pantufa”. Ou seja, entender se aquele formato funciona ou está funcionando para a pessoa, ou se ela, por algum motivo de ordem interna e psicológica, está se submetendo à vontade do outro, “pela carência, o medo de ficar sozinho, a pressão para ter alguém ao seu lado em datas comemorativas”, mesmo que tudo isso ocorra, por assim dizer, longe das câmeras e dos holofotes. Pois o alardeado “conforto da pantufa” nem sempre é uma verdade, a depender do modelo de cada pé…

por raphael Vidigal

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